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Desenvolvimento e as pedras no caminho

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Desenvolvimento e as pedras no caminho

“Aprendi com as medicinas naturais que o sistema vegetal ou fúngico demora um tempo pra fazer o acoplamento áurico com quem o consagra, e algumas vezes confundimos a experiência que o enteógeno tem conosco com as experiências que temos nós com eles. Um professor não consegue ensinar tudo em uma aula; são pequenas doses de conhecimento absorvidas gradualmente que constroem o grande sábio – querer revelar os segredos da natureza (ou deixar que ela os revele) de uma só vez pode ser perturbador e acabar gerando uma mácula em nosso campo energético que depois, pra desfazer, dá um trabalhão. Muitas vezes, menos é mais. 

 

O uso dos enteógenos – especialmente sem preparação, acompanhamento terapêutico ou processo de integração adequado – pode abrir estados de consciência tão amplos que o praticante, sem estrutura interna, acaba misturando níveis da realidade, criando confusão entre: 

  • percepção e verdade,
  • sensação e comprovação,
  • metáfora e fato,
  • visão e diagnóstico,
  • intuição e delírio.

  

Queria compartilhar exemplos comuns de distorções cognitivas e espirituais que ocorrem comumente com psiconautas:  

 

  1. Confundir imagem interna com realidade externa
  • “Vi um jaguar, ele estava ali comigo no plano físico.”
  • “A planta me falou que eu devo largar tudo imediatamente e virar xamã.”

A visão simbólica é interpretada como literal ou como ordem inquestionável. 

  

  1. Misturar percepção alterada com verdade absoluta: 
  • “Senti que tudo é uma simulação…isso é a verdade absoluta.”
  • “Vi que minha mãe era uma bruxa em outra vida, ela é minha inimiga espiritual.”

O que foi percebido num estado alterado é tomado como verdade objetiva, ignorando a subjetividade da experiência. 

  

  1. Confundir insights com comandos:
  • “A ayahuasca disse que preciso me casar com aquela pessoa.” 
  • “A entidade disse que sou grande curador e preciso abrir um centro espiritual.”

A percepção simbólica se torna impulso de ação imediata, sem reflexão nem discernimento ético ou prático. 

  

  1. Projeção de conteúdos inconscientes como revelações espirituais:
  • “Vi pessoas rindo e entendi que estavam rindo de mim, logo, elas são invejosas.”
  • “Senti medo na presença de fulano, então ele deve estar com energia ruim.”

A psique projeta seus medos ou traumas em outros, sob a forma de julgamento espiritual. 

  

  1. Confundir arquetípico com pessoal
  • “Vi uma serpente, sou herdeiro do Kundalini de Shiva.” 
  • “A onça apareceu, então agora sou filho de Oxóssi.”

Imagens coletivas ou culturais são interpretadas como atributos pessoais exclusivos, muitas vezes inflando o ego. 

  

  1. Misturam crenças religiosas pessoais com a experiência direta
  • “A ayahuasca me mostrou que só o meu orixá me protege, o resto é engano.”
  • “O cogumelo confirmou que minha religião está certa e as outras não.”

A experiência é interpretada de forma estreita, reforçando crenças anteriores em vez de expandi-las. 

  

  1. Confundir fenômenos mentais com mediunidade legítimamente espontânea 
  • “Durante a sessão, comecei a falar em línguas, incorporei, então sou médium desenvolvido.”
  • “Senti que encarnei um espírito de luz, agora sinto que posso orientar os outros no caminho.”

O transe espontâneo é confundido com iluminação intempestiva, dom ou missão espiritual clara. 

  

  1. Tomar estados transitórios como identidade permanente
  • “Experimentei a não-dualidade — agora estou iluminado.”
  • “Vi que sou o próprio Cristo. Senti isso com todas as células do meu corpo.”

  

Um estado de expansão momentânea é confundido com realização definitiva ou status espiritual. 

  

 Causas frequentes dessas distorções: 

  • Falta de discernimento ontológico (não diferenciar níveis da realidade);
  • Ausência de preparação e integração;
  • Carência de referências simbólicas, mitológicas ou filosóficas sólidas;
  • Desejo inconsciente de poder, destaque ou salvação rápida;
  • Estados dissociativos ou egóicos mascarados de espiritualidade.

  

Caminhos que ajudariam (ao meu humilde ver) evitar essas confusões: 

  1. Acompanhamento com facilitadores experientes e de lastro ético; 
  2. Prática de integração psicológica e espiritual constante (terapia, escrita, grupo de apoio);
  3. Evitar apego ou aversão à experiencia e entender que sempre vem que merecemos e precisamos 
  4. Desenvolvimento de autocrítica amorosa e humildade espiritual;
  5. Clareza de que toda experiência precisa ser digerida, e não idolatrada. 

 

 

 

O desenvolvimento em sentido amplo é gradual e acontece quando as condições para a conexão estão bem estabelecidas. Se essas condições não são cultivadas no dia a dia, não há como sustentar a conexão que os enteógenos possibilitam e, muito das curas, entendimentos e libertações se perdem no esquecimento, acabando por vezes inclusive se tornando karma negativo. 

 

Por Daniel Fuller, Ali Selva, Ruzman Quiro 

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