Desenvolvimento e as pedras no caminho
“Aprendi com as medicinas naturais que o sistema vegetal ou fúngico demora um tempo pra fazer o acoplamento áurico com quem o consagra, e algumas vezes confundimos a experiência que o enteógeno tem conosco com as experiências que temos nós com eles. Um professor não consegue ensinar tudo em uma aula; são pequenas doses de conhecimento absorvidas gradualmente que constroem o grande sábio – querer revelar os segredos da natureza (ou deixar que ela os revele) de uma só vez pode ser perturbador e acabar gerando uma mácula em nosso campo energético que depois, pra desfazer, dá um trabalhão. Muitas vezes, menos é mais.
O uso dos enteógenos – especialmente sem preparação, acompanhamento terapêutico ou processo de integração adequado – pode abrir estados de consciência tão amplos que o praticante, sem estrutura interna, acaba misturando níveis da realidade, criando confusão entre:
- percepção e verdade,
- sensação e comprovação,
- metáfora e fato,
- visão e diagnóstico,
- intuição e delírio.
Queria compartilhar exemplos comuns de distorções cognitivas e espirituais que ocorrem comumente com psiconautas:
- Confundir imagem interna com realidade externa
- “Vi um jaguar, ele estava ali comigo no plano físico.”
- “A planta me falou que eu devo largar tudo imediatamente e virar xamã.”
A visão simbólica é interpretada como literal ou como ordem inquestionável.
- Misturar percepção alterada com verdade absoluta:
- “Senti que tudo é uma simulação…isso é a verdade absoluta.”
- “Vi que minha mãe era uma bruxa em outra vida, ela é minha inimiga espiritual.”
O que foi percebido num estado alterado é tomado como verdade objetiva, ignorando a subjetividade da experiência.
- Confundir insights com comandos:
- “A ayahuasca disse que preciso me casar com aquela pessoa.”
- “A entidade disse que sou grande curador e preciso abrir um centro espiritual.”
A percepção simbólica se torna impulso de ação imediata, sem reflexão nem discernimento ético ou prático.
- Projeção de conteúdos inconscientes como revelações espirituais:
- “Vi pessoas rindo e entendi que estavam rindo de mim, logo, elas são invejosas.”
- “Senti medo na presença de fulano, então ele deve estar com energia ruim.”
A psique projeta seus medos ou traumas em outros, sob a forma de julgamento espiritual.
- Confundir arquetípico com pessoal
- “Vi uma serpente, sou herdeiro do Kundalini de Shiva.”
- “A onça apareceu, então agora sou filho de Oxóssi.”
Imagens coletivas ou culturais são interpretadas como atributos pessoais exclusivos, muitas vezes inflando o ego.
- Misturam crenças religiosas pessoais com a experiência direta
- “A ayahuasca me mostrou que só o meu orixá me protege, o resto é engano.”
- “O cogumelo confirmou que minha religião está certa e as outras não.”
A experiência é interpretada de forma estreita, reforçando crenças anteriores em vez de expandi-las.
- Confundir fenômenos mentais com mediunidade legítimamente espontânea
- “Durante a sessão, comecei a falar em línguas, incorporei, então sou médium desenvolvido.”
- “Senti que encarnei um espírito de luz, agora sinto que posso orientar os outros no caminho.”
O transe espontâneo é confundido com iluminação intempestiva, dom ou missão espiritual clara.
- Tomar estados transitórios como identidade permanente
- “Experimentei a não-dualidade — agora estou iluminado.”
- “Vi que sou o próprio Cristo. Senti isso com todas as células do meu corpo.”
Um estado de expansão momentânea é confundido com realização definitiva ou status espiritual.
Causas frequentes dessas distorções:
- Falta de discernimento ontológico (não diferenciar níveis da realidade);
- Ausência de preparação e integração;
- Carência de referências simbólicas, mitológicas ou filosóficas sólidas;
- Desejo inconsciente de poder, destaque ou salvação rápida;
- Estados dissociativos ou egóicos mascarados de espiritualidade.
Caminhos que ajudariam (ao meu humilde ver) evitar essas confusões:
- Acompanhamento com facilitadores experientes e de lastro ético;
- Prática de integração psicológica e espiritual constante (terapia, escrita, grupo de apoio);
- Evitar apego ou aversão à experiencia e entender que sempre vem que merecemos e precisamos
- Desenvolvimento de autocrítica amorosa e humildade espiritual;
- Clareza de que toda experiência precisa ser digerida, e não idolatrada.
O desenvolvimento em sentido amplo é gradual e acontece quando as condições para a conexão estão bem estabelecidas. Se essas condições não são cultivadas no dia a dia, não há como sustentar a conexão que os enteógenos possibilitam e, muito das curas, entendimentos e libertações se perdem no esquecimento, acabando por vezes inclusive se tornando karma negativo.
Por Daniel Fuller, Ali Selva, Ruzman Quiro


